Definições
Na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC-SUS) as PICS são entendidas como:
“abordagens que buscam estimular os mecanismos naturais de prevenção de agravos e recuperação da saúde por meio de tecnologias eficazes e seguras, com ênfase na escuta acolhedora, no desenvolvimento do vínculo terapêutico e na integração do ser humano com o meio ambiente e a sociedade. Outros pontos compartilhados pelas diversas abordagens abrangidas nesse campo são a visão ampliada do processo saúde-doença e a promoção global do cuidado humano, especialmente do autocuidado.” (Brasil, 2006, p.10).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define as Medicinas Tradicionais Complementares e Integrativas da seguinte forma:
“É a soma total de conhecimentos, habilidades e práticas baseadas em teorias, crenças e experiências de diferentes culturas, explicáveis ou não, usadas para manter a saúde e prevenir, diagnosticar, melhorar ou tratar enfermidades físicas e mentais” (WHO, 2013, p.15)
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS - PNPIC-SUS, Brasília, 2006. 92 p.
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Fonte: imagem gerada por GPT-4 AI
No Brasil, a saúde é definida no artigo 196 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 como "um direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação."
O conceito de saúde é complexo e possui várias definições e interpretações em diferentes áreas e culturas. Trata-se de um conceito em constante evolução ao longo do tempo.
Conhecer diferentes conceitos de saúde é importante porque eles podem influenciar a estrutura dos serviços de saúde, os métodos e formas de tratamento, e o treinamento de profissionais de saúde.
Vamos conhecer um pouquinho alguns modelos e definições do conceito de saúde?
Modelo Convencional (biomédico)
Historicamente, a saúde tem sido definida como a ausência de doença, com foco na função biológica e na normalidade estatística. Essa visão considera a saúde como um conceito livre de valores, o que significa que a definição de saúde é feita sem considerar aspectos subjetivos, como crenças pessoais, culturais ou sociais. Nesse contexto, a saúde é vista de maneira objetiva, focando apenas em parâmetros biológicos e estatísticos, como a ausência de doenças ou disfunções mensuráveis. As doenças são vistas como estados internos que reduzem a capacidade funcional abaixo dos níveis típicos.
Modelo Holístico
Bem-estar Completo - Esta é a definição da OMS que considera saúde como "um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade" (OMS, 1948). Embora esta definição receba críticas por ser considerada utópica, ela ainda é largamente utilizada, pois amplia o conceito de saúde para além dos aspectos físicos.
Modelo de Bem-Estar
O conceito de saúde no modelo de bem-estar visa a níveis mais elevados de saúde e bem-estar. Este modelo assume que a mente influencia até mesmo os processos físicos mais simples, como a digestão dos alimentos, e define a saúde como "aptidão pessoal ideal para uma vida plena e criativa". A saúde é vista como uma experiência interna ou sentimento que pode estar presente ou ausente em diferentes pessoas, reconhecendo a importante ligação entre mente e corpo.
O modelo de Bem-Estar destaca que a saúde não é apenas a ausência de doença, mas inclui dimensões positivas como bem-estar, energia, capacidade de trabalhar e eficiência. Ele reconhece que muitas doenças são curadas pelo próprio corpo e que a saúde é fortemente influenciada por sentimentos pessoais, como energia e conforto. O modelo também sugere que saúde e doença são dimensões separadas, não apenas opostas, e que um nível elevado de bem-estar envolve progresso em direção a um nível mais alto de funcionamento, uma visão otimista do futuro e a integração do indivíduo como um todo — corpo, mente e espírito.
Além disso, o modelo de Bem-Estar considera o aspecto espiritual da saúde, que embora difícil de operacionalizar, parece ter impacto no bem-estar físico, mental e social. Estudos indicam que crenças e práticas religiosas têm efeitos benéficos sobre a morbidade e mortalidade, sugerindo que a fé religiosa forte está associada a maior satisfação com a vida e felicidade pessoal. Assim, o modelo desafia a medicina a focar não apenas no indivíduo como um todo, mas também em promover os aspectos positivos da saúde.
Podemos considerar que as PICS possuem uma forte relação com o modelo de bem-estar, pois compartilham a visão de que a saúde é mais do que a ausência de doença. Consideram as dimensões físicas, mentais, espirituais e relacionais do ser humano. Buscam promover e recuperar a saúde de forma holística, reconhecendo o poder de autocura do organismo e o papel central do equilíbrio da energia vital para a saúde.
Modelo Integrativo
A saúde integrativa enfatiza a importância de considerar a pessoa como um todo, incluindo fatores físicos, mentais, emocionais, sociais e ambientais, na busca pela saúde e bem-estar ideais. Este conceito se estende além das práticas médicas convencionais, pois incorpora as medicinas e práticas alternativas e complementares em saúde.
A saúde integrativa é definida como uma abordagem holística que combina práticas médicas convencionais com terapias complementares para abordar todo o espectro de determinantes de saúde, incluindo fatores sociais, comportamentais e ambientais. Essa abordagem visa a criar uma definição mais inclusiva de saúde que ajude a planejar ações em vários setores da vida diária.
A saúde integrativa incorpora uma série de abordagens terapêuticas e de estilo de vida, como alimentação saudável, atividade física, gerenciamento de estresse e terapias complementares, como acupuntura e ioga, para alcançar saúde e cura.
Essa abordagem reafirma a importância da relação entre profissional e paciente, com foco no atendimento centrado no paciente e no respeito mútuo entre os profissionais de saúde.
Em resumo, a saúde integrativa representa uma mudança em direção a uma abordagem mais abrangente e inclusiva para a assistência médica, enfatizando a prevenção, o bem-estar e a integração de diversas práticas terapêuticas. Ao focar na pessoa como um todo e promover a colaboração entre profissionais de saúde, a saúde integrativa visa a melhorar os resultados de saúde e a satisfação do paciente.
Modelo Ambiental
Este modelo vê a saúde como um estado dinâmico caracterizado pela capacidade de manter a homeostase e responder às mudanças ambientais.
A essência desse modelo está na capacidade de um organismo manter um equilíbrio com seu ambiente, vivendo com relativa liberdade de dor, incapacidade ou limitações, incluindo habilidades sociais. A saúde, nesse contexto, é vista quando um organismo consegue trabalhar com sucesso em seu ambiente, crescendo, funcionando e prosperando.
Este modelo considera a saúde como um equilíbrio dinâmico com o ambiente, destacando a capacidade de viver fisicamente, mentalmente e socialmente. A qualidade de vida relacionada à saúde é uma medida importante dentro desse modelo, incluindo domínios como morte e duração da vida, percepções de saúde, oportunidade e status funcional.
Modelo Interdisciplinar
Saúde Única (“One Health”)
O conceito “One Health” é uma abordagem interdisciplinar que enfatiza a interconexão da saúde humana, animal e ambiental. Ele visa promover a colaboração entre vários setores para abordar desafios complexos de saúde, como doenças zoonóticas (causadas pela interação entre homens e animais), mudanças climáticas e resistência antimicrobiana (fenômeno em que micro-organismos, como bactérias, vírus, fungos e parasitas, evoluem para resistir aos efeitos dos medicamentos que foram desenvolvidos para eliminá-los).
“One Health” é definido como um esforço colaborativo de múltiplas áreas trabalhando de forma local, nacional e global para alcançar a saúde ideal para pessoas, animais e o meio ambiente. Esta abordagem é apoiada por grandes organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU). O conceito tem sido aplicado em vários contextos, incluindo biologia de infecções, infecções zoonóticas e medicina comparada.
A abordagem “One Health” incentiva parcerias sustentáveis e colaboração interdisciplinar para abordar questões de saúde. Ela integra conhecimento de diferentes campos para melhorar intervenções e lidar com problemas multifacetados. Ao unir especialistas de várias disciplinas, buscam-se soluções e enfrentar questões complexas que afetam tanto humanos quanto animais e o meio ambiente. Essa colaboração ajuda a criar parcerias duradouras e intervenções mais eficazes.
Esta colaboração é crucial para abordar as doenças infecciosas emergentes, os impactos das alterações climáticas e o vínculo entre humanos e animais.
Os modelos de saúde mais amplos compartilham a visão de que a saúde e a qualidade de vida envolvem vários aspectos do indivíduo e do ambiente. As PICS possuem essa visão holística e se encaixam bem nesses modelos ao fornecer um conjunto diversificado de abordagens terapêuticas que englobam aspectos físicos, emocionais, sociais, ambientais e espirituais da saúde.
Assim, as PICS fazem parte de modelos que consideram a importância da interdisciplinaridade na saúde moderna, onde a integração de conhecimentos diversos e complementares pode levar a melhores resultados de saúde e bem-estar.
As novas e mais amplas concepções de saúde trazem desafios de operacionalização e de avaliação. Nesse sentido, as pesquisas nesse campo são fundamentais para a integração de novos modelos em saúde que atendam de forma integral às necessidades de saúde de todos os seres vivos em um mundo em constante transformação.
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Determinantes da saúde são os vários fatores que influenciam, afetam ou determinam o estado de saúde de um indivíduo e das populações.
O modelo dos “determinantes da saúde” considera que a saúde não é determinada apenas por fatores biológicos ou médicos.
O equilíbrio saúde-doença é determinado por uma multiplicidade de fatores de origem social, econômica, política, cultural, ambiental e biológica/genética. Nesse sentido, esses determinantes são, de uma forma geral, classificados em determinantes sociais, pessoais, ambientais e comerciais.
Determinantes Sociais da Saúde
São as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem. Eles incluem fatores como cultura,renda, educação, emprego, apoio social e condições de vizinhança. Os determinantes sociais da saúde são muito importantes para entender as disparidades de saúde.
Determinantes Políticos da Saúde
O conceito de determinantes políticos da saúde enfatiza o impacto significativo que as decisões e estruturas políticas têm sobre os resultados de saúde. Essa perspectiva sugere que as desigualdades em saúde não são apenas moldadas por determinantes sociais, mas também são profundamente influenciadas por fatores políticos, incluindo políticas governamentais, ideologias políticas e contextos geopolíticos.
Os determinantes políticos da saúde referem-se às maneiras pelas quais as decisões políticas, a governança e as ideologias influenciam os resultados de saúde. Esses determinantes incluem políticas governamentais sobre assistência médica, estabilidade econômica e bem-estar social, que podem promover a equidade em saúde ou exacerbar as disparidades de saúde..
Determinantes Pessoais da Saúde
Determinantes pessoais da saúde
São características individuais, como resiliência, práticas de saúde pessoal e habilidades de enfrentamento, que são particularmente importantes em populações envelhecidas.
Determinantes Ambientais da Saúde
São as características e condições do meio ambiente que afetam o estado de saúde, tais como a poluição da água e do ar, o aquecimento global, a gestão de resíduos, a segurança alimentar, as condições de habitação, entre outras.
Determinantes Comerciais da Saúde
Referem-se à influência de entidades e práticas comerciais na saúde, incluindo a comercialização de produtos não saudáveis e, também, o impacto do marketing e do lobby político no campo das políticas de saúde pública.
Outra forma de considerar os determinantes da saúde é classificá-los, de uma forma mais ampla, de micro e macrodeterminantes.
Microdeterminantes
Os Microdeterminantes são fatores que atuam em um nível mais individual ou imediato. Eles incluem aspectos relacionados ao estilo de vida, tais como:
Comportamentos e hábitos: dieta, exercícios físicos, uso de álcool e tabaco.
Redes de apoio sociais e comunitárias: suporte social que um indivíduo recebe, que pode influenciar diretamente sua saúde.
Características individuais: gênero e genética.
Esses fatores são considerados mais próximos do indivíduo e, muitas vezes, têm o potencial de serem modificados por meio de intervenções diretas.
Macrodetrminantes
Os macrodeterminantes, por outro lado, são fatores que operam em um nível mais amplo, afetando grandes grupos ou populações inteiras. Eles incluem:
Fatores econômicos: como a economia de um país, políticas de emprego e distribuição de renda.
Fatores ambientais: qualidade do ar, água e solo, condições de habitação e mudanças climáticas.
Fatores sociais e culturais: normas sociais, políticas públicas e desigualdades estruturais.
Esses fatores são mais abrangentes e frequentemente requerem intervenções políticas na sociedade para serem abordados de maneira eficaz.
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A categoria Racionalidades Médicas (RM) foi criada pela socióloga brasileira, especialista em Saúde Coletiva Madel Therezinha Luz. Os estudos de Madel tornaram-se um marco epistemológico em saúde e contribuíram para a formulação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPIC-SUS) (Tesser; Luz, 2008).
Com a publicação do livro "Natural, Racional, Social" em 1987, fruto de sua tese, a autora abriu espaço para discutir como a racionalidade científica moderna foi construída e como ela se relaciona com a sociologia e a medicina (Luz, 2019). Madel explora as raízes históricas, sociais e políticas do conhecimento médico, que se baseia nas ciências positivistas (como a ciência mecânica, fragmentada, racional, materialista e metódica), e apresenta alternativas, como o vitalismo. Assim, Madel Luz e seu grupo tem se dedicado a estudar racionalidades e práticas médicas que estão fora do escopo da biomedicina.
A categoria "Racionalidades Médicas" ajuda a diferenciar claramente entre sistemas médicos complexos e terapias isoladas.
Uma Racionalidade Médica é “um conjunto integrado e estruturado de práticas e saberes composto por cinco dimensões interligadas: uma morfologia humana (anatomia, na biomedicina), uma dinâmica vital (fisiologia), um sistema de diagnose, um sistema terapêutico e uma doutrina médica (explicativa do que é a doença ou adoecimento, sua origem ou causa, sua evolução ou cura), todos embasados em uma sexta dimensão implícita ou explícita: uma cosmologia.” (Tesser; Luz, 2018, p.196).
Com base no potencial de resposta de medicinas complexas a cada uma destas 6 dimensões, o grupo de Madel Luz produziu quadros comparativos sintéticos de 4 racionalidades médicas: a biomedicina, a medicina tradicional chinesa, a ayurveda, e a homeopatia, como pode ser observado na tabela a seguir:
| Quadro-resumo comparativo das 4 racionalidades médicas | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Racionalidade médica | Cosmologia | Doutrina médica | Morfologia | Fisiologia ou dinâmica vital | Diagnóstico | Terapêutica |
| Medicina Ocidental Contemporânea | Física Newtoniana (clássica implícita) | Teoria(s) da causalidade da doença e seu combate | Morfologia dos sistemas (macro e micro) orgânicos | Fisiopatologia e fisiologia dos sistemas | Semiologia anamnese; exames físicos e exames complementares | Medicamentos, cirurgia, prevenção |
| Medicina Homeopática | Cosmologia Ocidental Tradicional: (alquímica) e clássica (Newtoniana) implícita | Teoria da energia ou força vital e seus desequilíbrios nos sujeitos individuais | Organismos materiais (sistemas) força (ou energia) vital animadora | Fisiologia energética (implícita); fisiologia dos sistemas; fisiologia do medicamento e do adoecimento | Semiologia anamnese do desequilíbrio individual; diagnóstico do remédio e da enfermidade individuais; diagnóstico clínico | Medicamento Higiene (física e mental) |
| Medicina Tradicional Chinesa | Cosmogonia chinesa (geração do microcosmo a partir do macrocosmo) | Teorias do Yin-Yang e das 5 fasees (ou elementos) e seu equilíbrio (harmonia) nos sujeitos individuais | Teoria dos canais meridianos e dos pontos de acupuntura (corpo sutil). Teoria dos órgãos e das vísceras (corpo orgânico) | Fisioloiga dos sopros vitais (Qi); Fisioloiga dos órgãos; Dinãmica Yin-Yang no organismo e com o meio ambiente | Semiologia anamneses do desequilíbrio Yin-Yang. Diagnóstico do desequilíbrios dos sujeitos | Higiene; exercícios;artes; meditação; dietética; fitoterapia; massagens; acupuntura e moxabustão |
| Medicina Ayurvédica | Cosmologia Indiana (geração do microcosmo a partir do macrocosmo) | Teoria dos cinco elementos e das constituições humorais (Tridosha) nos sujeitos individuais | Teoria dos vários corpos (denso e sutis); Teoria da constituição dos tecidos vitais, dos órgãos e dos sentidos | Fisiologia energética (circulação do Prana e das demais energias nos corpos). Equilíbrio do “Tridosha”. | Semiologia; anamnese do desequilíbrio do Tridosha. Sistema de observação “dos oito pontos”. Diagnóstico do desequilíbrio dos sujeitos | Dietética; técnicas de eliminação e purificação. Exercícios; Yoga; meditação, massagens; fitoterapia; medicamentos. |
Fonte: (Luz; Barros, 2012, p. 22)
Embora essas racionalidades sejam diferentes, elas permitem comparações, pois todas são “portadoras de razão médica e de eficácia terapêutica próprias coerentes com seu estilo de pensamento. Com isso, fica claro que não é somente a biomedicina a portadora de racionalidade.
As medicinas homeopática, chinesa e ayurvédica consideram o princípio vitalista e focam na integralidade do ser, incluindo suas relações com o meio. Em suas cosmologias (6ª dimensão da categoria RM) essas medicinas integram o Homem e a natureza em uma perspectiva de macro e microuniversos, consideram o ser integral constituído das dimensões psicobiológica, social e espiritual. Consideram a doença como consequência da ruptura de um equilíbrio interno (microuniverso) e relacional (macrouniverso).
Dessa forma, as racionalidades médicas vitalistas possuem a visão de que as doenças são manifestações do desequilíbrio da força ou energia vital, que interpenetra todos os seres vivos.
BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS - PNPIC-SUS, Brasília, 2006. 92 p.
LUZ, M.T. (1987). Natural, racional, social: razão médica e racionalidade moderna. 4ª edição, Editor Rodrigo Murtinho, Rio de Janeiro, Fiocruz, Edições Livres, 2019, pp. 184.
LUZ, M.T.; BARROS, N.F. (orgs). Racionalidades médicas e práticas integrativas em saúde. Estudos teóricos e empíricos. UERF/IMS/LAPIS. Rio de Janeiro. 2012, 452p.
TESSER, C.D., LUZ, M.T. Racionalidades médicas e integralidade. Ciência e Saúde Coletiva, n. 13, v. 1, p. 195-205, 2008.
TEIXEIRA, M.Z. Antropologia Médica Vitalista: uma ampliação ao entendimento do processo de adoecimento humano. Rev Med. N. 96, v. 3, p.145-58, 2017b.
O princípio vitalista é a base teórica e prática de atuação de diversas modalidades de PICS como a Medicina Tradicional Chinesa, a Medicina Ayurvédica, a Medicina Antroposófica, e muitas outras.
O termo “vitalista” ou "vitalismo" se refere a uma forma de pensamento que acredita na existência de uma força vital que é responsável pelos fenômenos da vida. Essa energia seria algo independente dos processos físicos ou químicos, tais como definidos pela biomedicina.
É uma força ou energia intrínseca e poderosa que controla a forma e o comportamento de todos os seres vivos.
O vitalismo sugere que a vida não pode ser completamente explicada apenas por reações químicas ou físicas, mas também por essa força presente nos organismos vivos.
O vitalismo é uma doutrina que se originou na Antiguidade. Foi descrita na antropologia e na medicina de antigas civilizações como a babilônica, a egípcia, a hindu, a caldeia-assírica, a chinesa, a grega, entre outras.
O paradigma médico vitalista surgiu com Hipócrates no século VI a.C. e considera que existe uma força conservadora que governa a harmonia e sustenta os corpos que ela mesma criou. Essa força se torna uma mediadora terapêutica quando alguma causa ofensiva perturba o equilíbrio dos corpos.
Na medicina ocidental europeia, o vitalismo só foi incorporado a partir do século XVIII.
A Antropologia Médica Vitalista busca estudar a essência espiritual do ser humano, relacionando a evolução do espírito com as experiências da vida. Ela também explora como pensamentos, sentimentos, emoções e entidades não materiais, como a mente, a alma ou o espírito, influenciam o corpo físico. Esse estudo ajuda a entender melhor a origem de várias doenças modernas, especialmente aquelas que têm causas ligadas a fatores psicológicos (psicossomáticas) ou causas desconhecidas.
Nesta linha de pensamento, o princípio vital é considerado como responsável pela manutenção da saúde e da vida, estando ligado substancialmente ao corpo físico. A concepção vitalista valoriza os componentes mente, alma e espírito no equilíbrio fisiológico-vital.
Nesse sentido, ao considerar a influência dos pensamentos, sentimentos e emoções na causa e evolução das doenças a doutrina vitalista pode ser associada aos aspectos difundidos pela psicossomática moderna e pelo recente campo de pesquisas que relacionam a saúde à espiritualidade.
RAMIREZ, Tomás Elias Quiroz. Evolucion del paradigma medico vitalista hasta Hahnemann. Monografia. Fundacion Universitaria Escuela Colombiana de Medicina Homeopatica Luis G Paez. Bogotá, 2015.
TEIXEIRA, M.Z. Antropologia Médica Vitalista: uma ampliação ao entendimento do processo de adoecimento humano. Rev Med. N. 96, v. 3, p.145-58, 2017b.
O termo holismo foi introduzido por Jan Christian Smuts em seu tratado de 1926 "Holismo e Evolução". É à ideia de que o universo e seus vários componentes devem ser vistos como totalidades integradas em vez de partes isoladas.
O termo deriva do grego “holos”, que significa “todo” e do elemento formador “ism” , que significa sistema, prática, doutrina, etc.
Embora o termo seja moderno, o conceito de holismo é antigo e seus princípios podem ser rastreados até Lao Tzu, um contemporâneo de Confúcio, que viveu no século VI a.C. Os ensinamentos de Lao Tzu são a essência do taoísmo, uma filosofia chinesa antiga.
No taoísmo, o universo é visto como uma harmonia de padrões interrelacionados que não podem existir um sem o outro. Esta visão retrata os seres humanos e seu ambiente como uma unidade interdependente, chamada de Tao. O conceito de Tao representa a realidade última e o princípio fundamental que subjaz ao universo. Está além da compreensão humana e não pode ser totalmente expresso por meio de palavras ou raciocínio.
Conforme os estudos de Cmich (1984), podemos identificar 4 princípios básicos do holismo:
Princípio 1
O mundo e todos os seres vivos funcionam como totalidades orgânicas. Isso significa que os organismos não são apenas uma coleção de células ou órgãos independentes, mas sim uma individualidade unificada.
A ideia é que a totalidade do organismo determina as características das partes, e não o contrário.
Este princípio enfatiza a visão de que a compreensão de qualquer entidade ou sistema deve considerar sua totalidade e não apenas suas partes isoladas.
Princípio 2
As partes de um todo estão intimamente conectadas umas às outras. Qualquer mudança em uma parte será acompanhada por mudanças adaptativas nas outras partes.
A ideia é que um todo não é apenas um organismo isolado, mas sim uma interconexão entre o organismo e seu ambiente. Essa interrelação não é apenas de causa e efeito, mas baseada no princípio da reciprocidade, onde as partes influenciam e são influenciadas mutuamente.
Este princípio enfatiza a visão de que o funcionamento de um organismo ou sistema depende de suas interações contínuas e dinâmicas com suas partes constituintes e com o ambiente ao seu redor. É uma abordagem que considera o impacto recíproco e adaptativo entre as partes de um sistema.
Princípio 3
A natureza de cada parte de um todo é determinada por sua relação com outras partes. Quando as partes são isoladas em componentes, as interrelações que existiam entre elas enquanto estavam unidas deixam de ser evidentes.
Quando a vida é considerada apenas em relação a suas funções especializadas, o resultado é um mundo esvaziado de significado.
Este princípio destaca a importância de considerar a interconexão e a interdependência das partes dentro de um sistema para compreender verdadeiramente a natureza e o funcionamento do todo.
Princípio 4
Quando as partes de um todo se interrelacionam, elas adquirem novas características que não existiam quando estavam em um estado não relacionado. Isso é conhecido como o princípio da sinergia.
A sinergia refere-se ao fenômeno onde o conjunto possui propriedades e capacidades que não são previsíveis apenas a partir das partes individuais. Isso significa que o todo possui qualidades emergentes que transcendem a simples soma de suas partes.
Este princípio sublinha a ideia de que a interação e a integração das partes em um sistema criam um todo com características únicas e complexas. Essa visão é central para o pensamento holístico, que busca compreender sistemas complexos em sua totalidade, ao invés de apenas analisar suas partes de forma isolada.
Holismo na Saúde
Holismo em saúde é uma abordagem abrangente que considera a pessoa inteira - mente, corpo e espírito - em vez de focar apenas em sintomas ou doenças específicas. Essa abordagem está enraizada na crença de que o todo é mais do que a soma de suas partes e enfatiza a interconexão de vários aspectos da saúde.
Alguns princípios-chave do holismo na saúde:
· Cuidados Integrais:
O holismo envolve tratar a pessoa como um todo, incluindo sua saúde física, mental, emocional e espiritual, em vez de apenas abordar sintomas ou doenças específicas.
· Interconectividade:
Reconhece a interdependência dos diferentes aspetos da saúde e a importância de considerar fatores sociais, culturais e ambientais na promoção e assistência à saúde.
· Modelo Biopsicossocial:
Este modelo integra fatores biológicos, psicológicos e sociais na compreensão da saúde e da doença, indo além da abordagem biomédica tradicional.
· Assistência centrada no paciente:
A assistência médica holística enfatiza a importância de compreender a experiência pessoal do paciente com a doença e a saúde, promovendo um relacionamento terapêutico entre o paciente e o profissional de saúde.
· Foco na Prevenção e Promoção da Saúde:
O holismo na área da saúde geralmente inclui um forte foco na prevenção e promoção da saúde, com o objetivo de melhorar o bem-estar geral e prevenir doenças por meio de mudanças no estilo de vida e educação em saúde.
· Bem-estar espiritual e emocional:
Atender às necessidades espirituais e emocionais é considerado essencial no cuidado holístico, reconhecendo seu impacto na saúde geral e na cura.
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